domingo, 4 de janeiro de 2026

René Cassin: o jurista que deu forma jurídica à dignidade humana

Como advogado, é impossível percorrer a história do Direito contemporâneo sem reconhecer a marca profunda deixada por René Samuel Cassin. Seu nome talvez não seja tão repetido fora dos círculos jurídicos quanto deveria, mas sua obra moldou silenciosamente a espinha dorsal do sistema internacional de proteção dos direitos humanos.

René Cassin nasceu em 1887, na França, em um contexto histórico marcado por guerras, colapsos institucionais e profundas violações à condição humana. Combatente na Primeira Guerra Mundial, Cassin vivenciou pessoalmente a brutalidade do conflito, experiência que marcaria de forma definitiva sua compreensão do papel do Direito como instrumento de contenção da barbárie e afirmação da dignidade humana.

Jurista de formação sólida e espírito profundamente humanista, Cassin não enxergava o Direito como mera técnica normativa, mas como compromisso ético com a humanidade. Essa visão se consolidou durante a Segunda Guerra Mundial, quando, exilado em Londres, integrou a resistência francesa e passou a refletir sobre a necessidade de construir um novo pacto civilizatório capaz de impedir a repetição dos horrores do século XX.

Foi nesse contexto que René Cassin se tornou um dos **principais redatores da Declaração Universal dos Direitos Humanos**, aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1948. Embora o texto final seja fruto de um esforço coletivo internacional, coube a Cassin a tarefa decisiva de estruturar juridicamente o documento, organizando seus princípios em uma arquitetura lógica e normativa que até hoje sustenta sua força.

Inspirado tanto na tradição do constitucionalismo francês quanto em valores universais, Cassin concebeu a Declaração como uma verdadeira carta de princípios fundamentais. Para ele, os direitos humanos não eram concessões do Estado, mas atributos inerentes à pessoa humana. Essa concepção rompeu com paradigmas autoritários e lançou as bases de uma nova ordem jurídica internacional, centrada na pessoa e não no poder.

A Declaração Universal, sob sua influência direta, passou a funcionar como um eixo normativo irradiador. A partir dela, desenvolveram-se tratados, constituições nacionais, tribunais internacionais e uma vasta jurisprudência comprometida com a proteção da dignidade, da liberdade e da igualdade. Mesmo sem força vinculante imediata, o texto tornou-se referência ética e jurídica global, algo raro na história do Direito.

O reconhecimento da importância de René Cassin veio também em vida. Em 1968, recebeu o Prêmio Nobel da Paz, não como um político ou líder militar, mas como jurista. Um jurista que acreditava que o Direito, quando corretamente orientado, pode ser uma ferramenta de paz, justiça e transformação social.

Para nós, advogados que atuamos diariamente na defesa de direitos, a trajetória de René Cassin é mais do que um registro histórico. Ela é um lembrete incômodo e necessário de que o exercício do Direito carrega uma responsabilidade que ultrapassa processos, prazos e petições. O compromisso com os direitos humanos não é acessório à profissão jurídica. Ele é parte essencial de sua razão de existir.

Em tempos de relativização de direitos, discursos de ódio e enfraquecimento das instituições democráticas, revisitar o legado de René Cassin é reafirmar que a dignidade humana não é negociável. É recordar que o Direito não pode ser neutro diante da injustiça. E é, sobretudo, reconhecer que a advocacia, quando fiel à sua vocação histórica, é uma trincheira permanente em defesa da humanidade.

René Cassin nos deixou uma lição que permanece atual: os direitos humanos não nascem do consenso confortável, mas da resistência firme contra a desumanização. Cabe a nós, operadores do Direito, manter viva essa herança.

sábado, 3 de janeiro de 2026

**Declaração da Chancelaria da Federação da Rússia sobre a agressão armada dos Estados Unidos contra a Venezuela**





Nesta manhã, os Estados Unidos da América cometeram um ato de agressão armada contra a Venezuela, fato que provoca profunda preocupação e veemente condenação.

Os pretextos apresentados para justificar tais ações são infundados. A animosidade ideológica prevaleceu sobre o pragmatismo nas relações internacionais, bem como sobre a disposição de construir relações baseadas na confiança e na previsibilidade.

Diante da situação que se desenvolve, é fundamental, antes de tudo, evitar uma nova escalada e preparar o terreno para a busca de uma solução por meio do diálogo. Partimos do pressuposto de que todas as partes que tenham queixas entre si devem procurar caminhos para resolver seus conflitos por meio de soluções construídas no diálogo. Estamos dispostos a apoiar esse processo.

A América Latina deve continuar sendo uma zona de paz, conforme proclamado em 2014. À Venezuela deve ser garantido o direito de determinar seu próprio destino, sem qualquer ingerência destrutiva e, menos ainda, sem ingerência militar externa.

Reafirmamos nossa solidariedade com o povo venezuelano e nosso apoio ao rumo adotado por sua liderança bolivariana, orientado à proteção dos interesses nacionais e da soberania do país.

Apoiamos a declaração das autoridades venezuelanas e dos líderes dos países da América Latina no sentido da convocação urgente de uma reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

A Embaixada da Federação da Rússia em Caracas opera normalmente e, considerando a situação, mantém contato permanente com as autoridades venezuelanas e com os cidadãos russos que se encontram no território da Venezuela. Até o momento, não há informações sobre cidadãos da Federação da Rússia afetados.

Texto traduzido e revisado para publicação por **Pedro Alem Santinho**, advogado.

René Cassin: o jurista que deu forma jurídica à dignidade humana

Como advogado, é impossível percorrer a história do Direito contemporâneo sem reconhecer a marca profunda deixada por René Samuel Cassin. Se...